domingo, 22 de abril de 2012

O cinema pós-traumático do Japão


DENNIS LIM, do "NEW YORK TIMES". Tradução de PAULO MIGLIACCI.



Presume-se há muito que os cineastas devem caminhar com cuidado ao filmar sobre uma tragédia. Quer se trate de uma guerra ou genocídio, ataque terrorista ou desastre natural, a importância de registrar um testemunho entra em choque com o perigo de trivializar ou explorar a calamidade.

Foto de 12 de fevereiro deste ano, destruíção pelo tsunami.
 Nos anais do cinema-catástrofe, o triplo desastre japonês provou ser um caso incomumente acelerado. Meses depois do poderoso tsunami e terremoto que mataram milhares de pessoas e causaram derretimento de reatores na usina nuclear Fukushima Daiichi, já surgiram filmes sobre o assunto em número suficiente para constituir um subgênero.

O Festival de Cinema de Berlim, em Fevereiro, exibiu três documentários sobre o desastre e suas consequências, lidando coletivamente com tópicos como as complicações do esforço de limpeza, o sofrimento das pessoas evacuadas e o movimento de oposição à energia nuclear, que ganhou nova energia.

A Japan Society, de Nova York, marcou a passagem do primeiro aniversário da calamidade com exibições de filmes como "The Tsunami and the Cherry Blossom", um documentário de curta metragem indicado ao Oscar e dirigido por Lucy Walker, e "Pray for Japan", que o diretor Stu Levy rodou enquanto trabalhava como voluntário nas operações de resgate em Tohoku, uma das regiões devastadas pelo desastre.

A lista de documentários é longa e está crescendo. A crise de Fukushima foi tema de uma edição recente do programa norte-americano "Frontline", e a rede de televisão japonesa NHK exibiu um programa por dia sobre o assunto na semana que antecedeu o 11 de março.

Mas essa nova onda de cinema pós-traumático também inclui diversos trabalhos de ficção, entre os quais "Women on the Edge", filme de Masashiro Kobayashi que mostra três irmãs distanciadas que voltam a se unir em meio aos destroços de sua aldeia natal, e "Himizu", adaptação de um mangá sobre adolescentes perturbados que o diretor Sion Siono reescreveu rapidamente a fim de incorporar a devastação concreta da região como pano de fundo.

A primeira tentativa de montar um panorama sobre a visão do cinema quanto ao 11 de março aconteceu em outubro de 2011, no Festival Internacional de Documentários de Yamagata, cidade que fica do lado oposto da cordilheira que se ergue sobre a região de Fukushima. Ao perceber o grande número de trabalhos inscritos que tinham temas relacionados ao desastre, Asako Fujioka, a diretora do escritório do festival em Tóquio, diz que ela e seus colegas decidiram exibir tudo que lhes fosse apresentado.

PECADO

A ideia, informou Fujioka em mensagem de e-mail, era "eliminar a curadoria" e em lugar disso apresentar um "arquivo visual improvisado". O festival de Yamagata exibiu 29 filmes sobre o terremoto e suas consequências, como parte de um programa chamado "Cinema Conosco". Alguns dos trabalhos adotavam abordagens oblíquas, como o projeto colaborativo iniciado pela cineasta Naomi Kawase, que incluía colaborações de realizadores famosos, a exemplo do tailandês Apichatpong Weerasethakul e do chinês Jia Zhangke, sobre o conceito de lar, mas a maioria consistia de imagens rodadas nas áreas mais atingidas.

O grande volume de respostas, e a velocidade com que os cineastas reagiram, podem ser efeito de diversos fatores: a conveniência da tecnologia digital de filmagem, a velocidade do ciclo permanente de notícias, a escala da catástrofe (que matou milhares de pessoas e deixou muito mais desabrigados) e a percepção de que era necessário contestar as posições do governo e as reportagens dos grandes veículos de imprensa (que foram alvo de análise e críticas rigorosas).

Há quem sugira impulsos mais profundos: "Tornou-se quase uma obrigação fazer alguma coisa sobre o terremoto, ao ponto de que filmar sobre alguma outra coisa era visto como uma espécie de pecado", diz Toshi Fujiwara, cujo filme "No Man's Zone", sobre as cidades abandonadas na região de Fukushima, foi exibido em Berlim.

Soldados da Defesa Civil japonesa resgatam moradores ilhados após o terremoto em Fukushima, no Japão.

Chris Fujiwara, diretor artístico do Festival de Cinema de Edimburgo e ex-professor da Universidade de Tóquio, apontou que muitos dos filmes "mencionam explicitamente ou aludem a um contexto muito amplo e rico para compreender o que o desastre revelou sobre a sociedade japonesa".

"No Man's Zone" é um filme-ensaio, que considera de uma perspectiva filosófica o que significa filmar algo invisível: as moléculas radiativas que podem tornar a região inabitável por décadas, e pôr fim ao modo de vida agrícola que já estava desaparecendo e agora pode ser extinto.

Atsushi Funahashi, com "Nuclear Nation", também exibido em Berlim, retrata as vidas cotidianas dos refugiados nucleares que foram forçados a abandonar a cidade de Futaba e o arrependimento do prefeito, agora desprovido de cidade para governar, que fala com franqueza da dependência fáustica de seu governo quanto ao dinheiro do setor nuclear.

URGÊNCIA E DEVER

Os filmes inspiraram debate não apenas sobre questões mas sobre os métodos dos cineastas. Alguns dos documentários exibidos em Yamagata resultaram em discussões vigorosas, de acordo com Fujioka, que acrescentou que os filmes "muitas vezes revelam a intranquilidade do cineasta, apanhado entre duas emoções: a urgência e o dever de registrar a realidade e o sentimento de culpa pela intrusão e por possivelmente tirar vantagem da tragédia que se abateu sobre as vítimas".
Muitas das questões éticas quanto a documentar o desastre giram em torno da dificuldade de conciliar as perspectivas de quem vê de fora e as experiências das pessoas diretamente afetadas. No caso dos filmes sobre o 11 de março, essas preocupações podem ser "coloridas pelas ideias japonesas quanto a decência e vergonha", disse Chris Fujiwara, que não é parente do cineasta Toshi Fujiwara.

Em "311", um dos mais controversos entre os filmes exibidos em Yamagata, quatro cineastas de Tóquio registram sua jornada à região de Fukushima. O que começa como uma "road trip" complicada e de humor negro, com as câmeras registrando contadores Geiger, se torna ainda mais incômodo quando eles entrevistam os moradores desorientados, acompanham a retirada de corpos e recebem, mais de uma vez, ordens de parar de filmar.

O conflito entre os moradores locais e os intrujões da cidade grande espelha uma dinâmica subjacente à crise em Fukushima: a usina destruída era operada pela Tokyo Electric Power Company e gerava energia consumida em Tóquio, a 150 quilômetros de distância.

Ética e estética se entrelaçam de modo especial nesses filmes, o que traz à memória o famoso pronunciamento de Jean-Luc Godard: "Travellings são uma questão de moralidade". Como no caso dos filmes sobre o furacão Katrina, muitos desses trabalhos mostram destroços e ruínas, tipicamente em longas tomadas filmadas de um veículo em movimento. Esse motivo visual captura a magnitude da devastação mas também transforma o desastre em turismo.

Entre os filmes mais sutis sobre Fukushima, "No Man's Land" talvez também seja aquele que revela mais consciência sobre os problemas do subgenêro. Fujiwara opera basicamente com uma câmera montada em tripé que registra demoradamente a beleza intrínseca das paisagens; a narração em off questiona nossa atração mórbida pelas imagens de destruição e menciona a relutância do cinegrafista quanto a caminhar pelas ruínas.

Alguns outros cineastas também buscaram um tom contemplativo, Jon Jost, veterano cineasta independente norte-americano (autor de "Sure Fire"), participou do Festival de Yamagata no ano passado e visitou as regiões devastadas. Agora, está concluindo um filme que rodou em uma ilha próxima do epicentro do abalo.

Intitulado "The Narcissus Flowers of Katsura-shima", o trabalho incorpora imagens de paisagens e poesia japonesa tradicional. A resposta não convencional do cineasta experimental Takashi Makino a Fukushima é um curta chamado "Generator", que vê Tóquio como organismo em desintegração por meio de imagens abstratas e pulsantes.

SABER O QUE FILMAR

O programa "Cinema Conosco" do Festival de Yamagata percorreu o Japão nos últimos meses. Fujioka diz que alguns espectadores, especialmente nas regiões devastadas, se comoveram, mas em outras regiões ela percebeu certa falta de interesse. "As pessoas, especialmente os jovens, querem ir adiante, agora que não estão em perigo", disse. "Há alguma fadiga de desastre".

Mas não parece que o número de filmes diminuirá. Alguns dos cineastas que já trabalharam com o 11 de março, entre os quais Funahashi e Fujiwara, preparam continuações. Fujiwara também diz que continua determinado a investigar outros aspectos da área de Fukushima, entre os quais sua história arqueológica, mas não sabe se o debate público causado pelo desastre seguirá adiante.

"Continuamos a evitar o debate", diz, acrescentando que boa parte do diálogo gira em torno da "fetichização do desastre". Em sua opinião, o maior crime para um cineasta é tratar do tema sem ponto de vista claro.

Dada a gravidade da situação, diz, já não basta simplesmente refletir o persistente sentimento de confusão. "Essas pessoas perderam parentes, perderam casas, perderam todo um estilo de vida. Se você não sabe o que filmar, não filme. Deixe-as em paz".


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